Reset Password

click to enable zoom
Loading Maps
We didn't find any results
open map
Make a Reservation
Advanced Search
Your search results

Fomos até ao Bussaco e redescobrimos a Mata Nacional a caminhar

Published on May 6, 2021 by admina

Fernando Pessoa afirmava que a melhor forma de chegar a Lisboa era de barco, de ver as casas a crescer a cada avanço do barco e a ela aportar. Com a Mata Nacional do Bussaco reconhecemos algo de semelhante, há que chegar até ela caminhando, de passos firmes serra acima, adentrando assim por esta floresta mágica.

A fórmula até é simples: deixar o carro no Luso, levar apenas o necessário, água q.b. e calçado confortável e meter pelas escadas que ladeiam o descuidado Teatro Avenida – que necessita de uma rápida intervenção, antes que sucumba às intempéries (vejam lá isso, Câmara Municipal da Mealhada) -, e penetrar na Mata por uma das suas portas. Neste caso, a de São João.

Há muito a explorar, a Mata soma 105 hectares, o que, para percebermos a ordem de escala, é 10 vezes a Alta de Coimbra, a original cidade intramuros. Tracei um percurso, entre as múltiplas possibilidades oferecidas pelos caminhos existente, que me conduzirá até à Cruz Alta, um dos pontos mais altos da Serra, a 547 metros de altitude, assim os gémeos contribuam.

A primeira coisa com que nos deparamos ao chegar ao Bussaco é a cerca conventual que delimita a Mata. O Bussaco é o único Santo Deserto construído em Portugal pelos Carmelitas Descalços, a partir de 1628. Aqui, viviam em clausura e isolamento total. Mantinham um mundo à parte, que separava o exterior, o mundano, do interior, a vida dedicada à contemplação e à experiência da penitência e oração.

Os monges moldaram incansavelmente as encostas, construíram e plantaram, movidos a devoção. Além do Convento de Santa Cruz, ergueram 4 capelas devocionais e 11 ermidas de habitação, das quais restam 9, e onde residiam alguns monges, isolados da restante comunidade em absoluto ascetismo. Construíram também a Via Sacra, um Sacromonte com 22 passos, que pretendiam reproduzir a Cidade Santa, em pequenas capelas num percurso com cerca de 3 quilómetros.

Na cerca que circunda o Deserto, rasgam-se Portas que a ele permitiam aceder. Como as Portas de Coimbra, outrora as principais, e onde estão gravadas, entre o empedrado embrechado, duas curiosas bulas papais: uma a interditar o acesso às mulheres, a outra a proibir que se cortassem árvores. Faz-se o caminho percorrendo a Via Sacra e visitando os eremitérios, fazendo os desvios necessários até à Cruz de Vopeliares (que integra os capitéis da antiga igreja de São Cristóvão, na Alta), descendo a encosta até à degradada Porta das Lapas, acompanhando o riacho até aos Lagos, Grande e Pequeno, em sucessão.

Sacode-se alguma energia a subir a Fonte Fria e percorrem-se os trilhos espreitando as fontes, os passos e as ermidas, em esforço crescente, até alcançar o topo da Mata, o topo deste mundo. As horas sucedem-se, a subida é exigente e tomaria 3 horas, não fossem as constantes paragens que a fazem prolongar a gosto. As paragens servem para observar esta ou aquela árvore, e abraçá-la à altura do peito. Para saborear o silêncio e encontrar alguma dessa contemplação de que os monges tanto ansiavam.

Aqui, o panorama oferece um enquadramento num perfeito equilíbrio entre o céu e as copas dos Cedros-do-Bussaco (que não são nem cedros, nem do Bussaco). Ao saltear alguns degraus, oferece-se uma bifurcação e uma escolha. Este é um deserto pulsante de vida, uma entidade que sobrou da época em que os mistérios da Natureza se associavam à presença do divino. Os lugares elevados, as formações rochosas, os riachos, as árvores, em tudo se identificava a presença de Deus. E os monges do Bussaco acreditavam que tinham que plantar árvores o mais altas possível, para mais próximo se encontrarem com o firmamento.

Outros percursos

Há diversos trilhos que se podem fazer, organizados, como o Trilho da Água, o da Via Sacra, o Militar e o da Floresta Relíquia. Este último, permite conhecer melhor a Mata Climácica (paisagem primitiva), o Adernal do Bussaco, um olhar sobre o que seria a primitiva floresta antes da presença humana. Preferimos este trilho informal, este mapeamento ao dará, que vai impulsionando a voltar uma e outra vez para descobrir novos recantos desta floresta encantada. E agora que a Mata Nacional do Bussaco é candidata a Património Mundial e se recuperam muitos dos seus recantos, há que vir e revisitá-la.

 

Mata Nacional do Bussaco
Horário: 2ª-6ª 9h-18h | Sáb, Dom e Feriados 9h-18h30
Preços: Acesso gratuito a pé e de bicicleta, pagável para acesso automóvel
Site 

Texto e fotos: Rafael Vieira

O conteúdo Fomos até ao Bussaco e redescobrimos a Mata Nacional a caminhar aparece primeiro em Coolectiva – Revista online de cultura, lifestyle e lazer de Coimbra e da Região Centro: agenda cultural, comes e bebes, passeios, saúde e bem-estar, miúdos e muito mais na cidade..