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Um refúgio poético chamado Constância

Published on July 23, 2020 by admina

Se calhar já ouviram falar da presença de Camões e da confluência dos rios Tejo e Zêzere, mas nada como visitar Constância para lhe perceber o encanto. As casinhas na encosta, aconchegadas pela água dos dois rios numa espécie de península, dão-lhe aquela serenidade poética que derrete qualquer um. Foi o O Meu Escritório É Lá Fora, que se dedica a contar histórias de viagens, de lugares e de pessoas, que nos levou lá. O autor do blogue, Carlos Bernardo, é de Abrantes, a localidade vizinha, e confessou-se fã da pequena vila que sentimos ser algo bucólica. 

Ortiga, Abrantes e Constância eram terras de calafates e dizem que muitos barcos dos Descobrimentos terão partido daqui, conta Carlos, à medida que passeamos à beira-rio, pelos caminhos e miradouros ajardinados, até chegarmos à simpática praia fluvial, bem apetecível nos dias de calor, com um pequeno areal, uma zona de piqueniques e um bar. Calafates eram os operários especializados na construção naval, e também é preciso dizer que, antes deles, habitaram e mergulharam aqui iberos, romanos, visigodos e mouros. 

História

Curiosamente, Constância antigamente chamava-se Punhete. Foi elevada a vila por D. Sebastião, que criou o concelho em 1571 e reconheceu-lhe o desenvolvimento, mas, por motivos óbvios, três séculos depois D. Maria II mudou-lhe o nome que soava mal mesmo à própria população e seria escarnecida pelas comunidades vizinhas. Consta que a Rainha de Portugal e dos Algarves terá escolhido o nome Constância porque os habitantes a demonstraram no apoio à causa liberal. A História da localidade está intimamente ligada aos rios e às actividades que proporcionavam, como o transporte fluvial, a construção e a reparação naval, a travessia e a pesca. Infelizmente o caminho de ferro e depois o transporte rodoviário, a par com construção das barragens, terão provocado alguma decadência das actividades tradicionais e a vila desviou o foco para o turismo. Alguns pontos de interesse são a Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, com o tecto pintado por José Malhôa, a Igreja da Misericórdia do século XVII, o Pelourinho e a Ponte Metálica sobre o Zêzere, desenhada por Gustavo Eiffel. 

O que visitar

Um dos argumentos turísticos de Constância é a lenda local, que terá passada de geração em geração, de que o poeta Luís de Camões (1524-1580) terá vivido na vila para cumprir uma pena a que foi condenado, vivendo num edifício à beira do Tejo. Apesar da genialidade como escritor, reconhecida sobretudo depois da morte, Camões também era conhecido pela vida boémia e turbulenta, envolvida em amores e desamores, tanto com damas da nobreza como com plebeias. A ideia de que se terá refugiado em Constância ganhou expressão nacional graças ao empenho de um médico, Adriano Burguete, e ao trabalho e persistência de uma jornalista, Manuela de Azevedo. Tanto que as ruínas da casa quinhentista foram classificadas como imóvel de interesse público em 1983 e foi erguida sobre ela a Casa-Memória de Camões, que preserva, valoriza e divulga a relação de Camões com a vila. Também há uma estátua do poeta, feita por Lagoa Henriques, e um Jardim-Horto, de Gonçalo Ribeiro Teles, com cerca de meia centena de exemplares da flora referida por Camões na sua obra. Inclui um Jardim de Macau (onde o poeta terá escrito Os Lusíadas) e um Planetário de Ptolomeu.

Onde comer

Depois do passeio, nada como experimentar pratos tradicionais. Fomos ao restaurante Dom José Pinhão, na Rua Luís de Camões, que foi uma antiga mercearia da qual ainda sobra um balcão original. O nome, aliás, é do antigo e carismático dono do estabelecimento comercial, do Séc. XIX. Explorado como restaurante pela mesma família há 17 anos, e recuperado com o apoio da TAGUS – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior, provámos um típico peixe do rio: a Fataça com Açorda de Ovas. Tem uma época específica para consumo, a partir de Outubro já não há. Também comemos o surpreendente Lombinho de Javali com Mel, Ameixas e Vinho do Porto. Pelo que nos contam os locais, há muitos javalis na terra e, apesar de às vezes pregarem um sustos, agora até têm um festival que lhes é dedicado. Outros pratos que podem provar são as Costoletinhas de Cordeiro com Molho de Coentros, o Sável Frito com Açorda, Enguias Fritas e o Lombo de Novilho com Molho de Azeitona. A sobremesa foi um leite creme, tão delicioso que parece que ainda o conseguimos sentir na boca. Dizem que vale a pena voltar na Páscoa para a Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem. A vila enfeita-se de papéis coloridos, há animação e uma antiga procissão de barcos ornamentados. Também são famosas as Pomonas Camonianas, a 10 de Junho, que retratam a época medieval e prestam homenagem, claro, ao poeta mais querido da vila.

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Filipa Queiroz, O Meu Escritório é Lá Fora e C.M. Constância

* A Coolectiva viajou a convite da TAGUS – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior que, em parceria com O Meu Escritório Lá Fora, dá a conhecer o território, numa lógica informal de viagem onde as pessoas são o destaque.

Category: PASSEIOS