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Seguimos os passos da comunidade judaica de Belmonte

Published on July 25, 2020 by admina

Em 2019, foram registadas cerca de 130 mil entradas nos espaços museológicos de Belmonte. Muitos deles chegados de Israel e dos Estados Unidos, para visitar o Museu Judaico e também a Sinagoga e antiga Judiaria. É que a vila onde nasceu Pedro Álvares Cabral, hoje com cerca de 3 mil habitantes, abriga um importante e interessantíssimo facto da História judaica sefardita, relacionado com a resistência dos judeus à intolerância religiosa na Península Ibérica. 

Elisabete Manteigueiro, técnica da Empresa Municipal de Promoção e Desenvolvimento Social de Belmonte, guiou-nos numa viagem ao mundo desbravado por um polaco chamado Samuel Schwarz que, no início do século XX, encontrou aqui portugueses que mantinham a fé judaica em segredo. As práticas e características foram registadas numa obra pioneira, Os Cristãos-novos em Portugal no Século XX, originalmente escrita em português e publicada em 1925, que mudou o curso da História. Mas já lá vamos.

Centro histórico

Estamos no Largo do Pelourinho, na zona histórica de Belmonte. À direita, vemos a Loja da Judiaria com um candelabro  gigante de 9 braços jardim, a chamada Hanoukia. Elisabete avisa: Não é fácil falar da comunidade judaica de Belmonte, é uma história feita de memórias e muitas vezes sabemos das coisas só com base naquilo que ‘eles’ nos transmitem, continua. Eles são a comunidade judaica, que sobreviveu em segredo durante quase 5 séculos, muito graças às mulheres e à oralidade. No século XVI, quando os mouros foram expulsos da Península Ibérica, e as terras espanholas e portuguesas reconquistadas pelos reis católicos e D. Manuel, foi instaurada uma lei que obrigava os judeus portugueses a converterem-se ao cristianismo ou a deixarem o país. Muitos abandonaram Portugal, com medo de represálias da Inquisição, alguns converteram-se em termos oficiais mas mantiveram o culto e tradições culturais no âmbito familiar, outros isolaram-se do mundo exterior, cortando o contacto com o resto do país e seguindo as tradições à risca.

Comunidade criptojudaica

Quando Samuel Schwarz, engenheiro, chega a Belmonte para trabalhar numas minas, descobriu os chamados marranos (alcunha alusiva à proibição ritual de comer carne de porco), judeus que mantiveram as tradições num secretismo tal que nem se (re)conheciam uns aos outros e pensavam que estavam sozinhos. É um caso excepcional de comunidade criptojudaica que só nos anos 70 estabeleceu contacto com os judeus de Israel e oficializou o judaísmo como sua religião. O Estado Novo, que durou de 1933 até 1974, fez com que a comunidade judaica de Belmonte se voltasse a fechar e só abrir em 1989, quando o segredo terminou oficialmente e foi criada a Associação de Judeus de Belmonte, hoje Comunidade Judaica de Belmonte. Desde essa altura que podemos dizer que a nossa comunidade tem crescido em termos religiosos e é activa, tem sinagoga e rabino desde 1996, cemitério próprio desde 2001, mas em número está a tornar-se reduzida, agora são cerca de 50 pessoas, explica Elisabete Manteigueiro.  

Tolerância

A nossa guia diz que há muitos jovens a fazer Aliá, que é o retorno à Terra Prometida, em Israel, como indica a Sefer Torá, o livro sagrado do judaísmo. Também é por uma questão de constituir família, é importante casar com alguém da própria religião, continua Elisabete Manteigueiro. Aliás, a técnica diz que se acredita que os casamentos mistos é que acabaram com as restantes comunidades do país, em cidades como a vizinha Guarda, por exemplo. Actualmente, há comunidades judaicas activas em Lisboa e no Porto, uma Chabad em Cacais e um Centro Judaico em Faro. A comunidade de Belmonte veio de Espanha e é sefardita e ortodoxa. Um dos aspectos de que mais se orgulha é o facto de haver sempre Minián para Sabat, o número mínimo de homens (10) para realizar a cerimónia que assinala o descanso semanal, desde o pôr-do-sol de sexta-feira até ao pôr-do-sol de Sábado. Vivem do trabalho em pequenos comércios e mercados e convive harmoniosamente com o resto da população, que sempre foi tolerante. Até celebram em conjunto a Hanouka em Dezembro, e os visitantes também podem participar na festa anual. O município distribui sufganiots, que é um doce típico.

Museu Judaico

O Museu Judaico de Belmonte é o primeiro do género em Portugal, inaugurado em 2005 e remodelado em 2017. Por estes dias está sossegado, devido à pandemia de Covid-19, e com horário reduzido: das 10h às 13h e das 14h30 às 17h30. A lotação é limitada a 10 pessoas de cada vez mas o museu vê-se bem em cerca de 1h, com tempo para mergulhar tranquilamente nas tradições e dia-a-dia da comunidade judaica de Belmonte e não só. Podem ver uma Sefer Torá original, que ainda é utilizada em algumas cerimónias, e outras peças que datam desde a Idade Média ao século XX, utilizadas por judeus e cristãos-novos no quotidiano ou nas práticas religiosas. Há fotografias lindíssimas espalhadas pelos corredores e objectos como roupas e instrumentos para cozinhar. Percebemos o que é a alimentação e rituais kosher, o que é uma mezuzá e uma menorá, como é importante a Pessach e como alheiras de carne de aves (em vez da carne de porco) serviram para enganar inquisidores.  

Antiga judiaria

Sainda do Museu Judaico e passando de novo pelo Pelourinho na Praça da República, subimos pelas ruas 1º de Maio e do Inverno, onde vemos marcas nas portas a indicar a Rota das Judiarias até ao Castelo de Belmonte, que vale a pena visitar. Contornando o castelo, entramos na antiga Judiaria. Actualmente a comunidade judaica está espalhada por toda a vila mas este continua a ser um local emblemático para eles e é onde fica a Sinagoga, conta Elisabete Manteigueiro. Não pudemos entrar no templo, inaugurado em Novembro de 1996, porque é sexta-feira à tarde e está a ser preparado o Sabat que implica, por exemplo, a proibição de 42 trabalhos como fazer lume, andar de carro e mexer em dinheiro. Não é possível visitar porque têm de preparar e confeccionar tudo antes do pôr-do-sol, justifica a técnica. Percorrendo a Rua Direita e a Rua da Fonte da Rosa, apercebemo-nos da multiculturalidade, porque também se vêem santos católicos nas portas entre outros símbolos. Pelo caminho, vimos a sede da Rádio Judaica Portuguesa, a primeira e única com emissão 24h por dia, 7 dias por semana.

Elisabete é de Belmonte mas diz que só começou a conhecer melhor a história da comunidade quando começou a trabalhar no Museu Judaico. E nos últimos 10 anos tenho-me apercebido de algumas diferenças, estão cada vez mais religiosos, até porque também eles têm um maior conhecimento da própria religião, conclui a técnica na despedida, voltand a evocar Samuel Schwarz. O engenheiro que começou um ciclo de viagens pela Europa até ao Cáucaso e Azerbeijão, passando pela Polónia, Itália, Espanha e que se fixou, constituiu família e naturalizou-se português. Morreu em 1953, antes de ver Os Cristãos-novos em Portugal no século XX traduzido para inglês e, mais recentemente, já no século XXI, para hebraico. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

Viajámos até Trancoso a convite do Turismo do Centro e a propósito do lançamento dos roteiros “Road Trips Centro de Portugal – 1 é bom, 2 é ótimo, 3 nunca é demais”. Podem ver o roteiro da Região Serra da Estrela aqui

Category: PASSEIOS