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Há bem mais do que Lágrimas a descobrir nestes jardins

Published on July 21, 2020 by admina

Há 12 anos que Cláudia do Vale conta a mesma história mas não se nota nada. Foi o entusiasmo, admiração e carinho da programadora cultural pela família – que é guardiã da Quinta das Lágrimas, em Coimbra, há dois séculos – que nos guiaram por este que é um dos espaços mais bonitos da cidade e que guarda imensas histórias. Falar dele é falar de duas mulheres que marcaram a História de Portugal, Isabel de Aragão e Inês de Castro, mas é também falar de amor e de morte, de romance e de tragédia, de botânica, água (muita água) e património cultural. Desde a Fonte dos Amores ao anfiteatro da Colina de Camões, passeámos por parte dos 10 hectares da antiga Quinta do Pombal, couto de caça da Família Real Portuguesa, hoje tutelado pela Fundação Inês de Castro.

A Fundação foi criada em 2005 e tem como objecto a investigação e divulgação da história, da cultura e da arte relacionadas com a temática Inesiana, a promoção e apoio a estudos e actividades culturais centradas em Inês de Castro, a sua época ou épocas mais próximas deste mito e proporcionar o aparecimento de novos valores culturais. Está sediada na Quinta e a Sociedade Quinta das Lágrimas, detentora dos terrenos e do Hotel Quinta das Lágrimas, que doou à Fundação, em regime de Comodato, os terrenos onde se integram os locais históricos, jardins, encosta e mata, e que constituem parte do seu património. Visitá-los é viajar até ao século XIV, naquele que hoje um símbolo e um pulmão da cidade. Vamos visitá-lo.

Fonte dos Amores

Entrando pela Rua José Vilarinho Raposo, depois de percorrer um pouco da mata chega-se ao célebre pórtico neo-gótico e à inacreditável Figueira Australiana do Séc. XIX, com o seu magestoso manto de raízes que transborda de baixo da terra. Entre eles está a Fonte dos Amores, onde terá começado a história que imortalizou o lugar. Pensar que neste canal nunca parou de correr esta água que vai ter ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, onde morava a Rainha Santa Isabel, diz Claudia do Vale. Foi a mulher de D. Dinis que o mandou construir. Segundo a nossa guia, a escritura de cedência da língua de terra à monarca existe e é o documento mais antigo detido pela Fundação. Não foi o milagre das rosas mas foi o milagre da água, porque a partir daquele momento o Mosteiro desenvolve de uma forma extraordinária, continua. Porém, foi o romance do neto dos reis, D. Pedro, que imortalizou o lugar. Obrigado por Afonso IV a casar com D. Constância, apaixonou-se pela aia castelhana, Inês de Castro. Dizem que vinha para aqui, fazia barquinhos de madeira, colocava-os nas águas e eles navegavam até ao Mosteiro onde eram vistos por D. Inês que os seguia, porque assumia que era um sinal de que ele a esperava, narra Claudia.

Fonte das Lágrimas 

Em pleno século XIV, desafiando as regras e preceitos sociais da altura, Pedro e Inês encontravam-se secretamente nos jardins da Quinta das Lágrimas, mesmo já depois da viuvez de Pedro. Tiveram 4 filhos mas a relação era fortemente reprovada e condenada pelo povo e pela corte e terminou abruptamente em 1355, quando por ordem de D. Afonso IV, Inês é degolada. Conta a lenda que no local onde isso aconteceu brotou a depois apelidada Fonte das Lágrimas, cujas águas o poeta Luís de Camões disse terem origem nas suas lágrimas e o sangue terá manchado as pedras. Cláudia do Vale revelou-nos que ainda há uma terceira pista, que é a forma da fonte em cruz. Louco de dor, após ter assumido a coroa do Rei no de Portugal em 1357, Pedro ordenou a prisão e a morte dos assassinos de Inês, arrancando-lhes ele mesmo o coração. Jurando que se tinham casado secretamente, impôs o reconhecimento como rainha de Portugal e mandou construir, no Mosteiro Real de Alcobaça, dois magníficos túmulos, para descansar para sempre junto à eterna amada. 

Anfiteatro

Hoje, junto à fonte, está uma pedra com um excerto do Canto III d’Os Lusíadas oferecida pelo Visconde de Wellington, que ficou no hotel e gostou tanto que mandou plantar duas sequóias gigantes, que ainda lá estão. Vede que fresca fonte rega as flores / Que lágrimas são a água e o nome amores, escreveu o poeta. Dedicada a ele, mesmo em frente à fonte, fica a Colina de Camões com o seu estupendo anfiteatro, criado pela arquitecta paisagista Cristina Castel-Branco, presidente da Fundação Inês de Castro. É lá que acontece anualmente o Festival das Artes e podemos dizer já que vale muito a pena ir um espectáculo naquele cenário, com vista postal sobre a cidade. Este ano não há festival, por causa da pandemia de Covid-19, mas há espaço para receber pequenas reuniões, como piqueniques ou festas de aniversário, na Colina de Camões – sempre respeitando o limite máximo de dez pessoas e com marcação prévia. Se caminharem pela colina vão descobrir uma homenagem ao pianista Bernardo Sassetti, falecido em 2012.

Jardim Medieval 

No Jardim Medieval, próximo da Fonte dos Amores também há uma zona de canteiros rectangulares e quadrados, típicos do Séc. XIV, e um túnel coberto de plantas que actualmente serve muitas vezes de passerelle das noivas antes de chegarem à tenda da festa. Junto aos canteiros o perfume é delicioso e a visita guiada permite descobrir e reflectir sobre detalhes como a mistura propositada de plantas comestíveis e flores, para que os insectos que as polinizam matem os predadores das hortícolas. Segundo Claudia do Vale, as couves, cebolas, alcachofras e variadíssimas especiarias são frequentemente usadas na cozinha do Hotel. No centro do jardim há uma belíssima fonte em forma de estrela que é original e contemporânea da Rainha Santa Isabel – mais uma vez, Séc. XIV -, apesar de ter sido deslocada da localização original, no caminho desde a entrada lateral da Quinta que a rainha costumava percorrer. Era o caminho que fazia desde o Convento de SantaClara-a-Velha até aqui, conta Cláudia do Vale, sempre emocionada por falar na mulher que se sabe ter sido uma extraordinária e visionária personagem da nossa História. 

Jardim Romântico

A Rainha Santa Isabel recolheu-se no Mosteiro depois de enviuvar e até morrer, vestindo o hábito da Ordem das Clarissas mas não fazendo votos, o que lhe permitia manter a fortuna que usou para ajudar os desfavorecidos. No século XVIII, já murada, a quinta foi adquirida pela família Osório Cabral de Castro que mandou construir um palácio. É nessa altura que por lá passa o visconde e é colocada a pedra com o texto de Camões e a quinta passa a chamar-se das Lágrimas. Já no século XIX, Miguel Osório Cabral de Castro, apaixonado por Botânica, manda construir um Jardim Romântico de canteiros redondos e ovais, lagos serpenteados e muitas, muitas árvores e plantas exóticas que hoje podem visitar e onde podem almoçar. Podemos dar a volta ao globo só através das etiquetas, diz Claudia do Vale, que destaca o magnífico e gigante Podocarpo e a Canforeira (se descobrirem a última experimentem apanhar e partir um ramo seco caído e cheirar). Também foi D. Miguel que mandou construir a porta em arco e a janela neo-góticas que dão acesso à mata e muitas visitas reais ou de outra importância por ali passaram entretanto.  

O palácio original teve de ser reconstruído, por causa de um grande incêndio, mas existe e em 1996 foi inaugurado o Hotel, considerado um dos melhores do país, frequentemente cenário de casamentos, baptizados e até divórcios ou incríveis declarações de amor, às vezes com a cumplicidade dos funcionários.

Tenho histórias incríveis, confessa Cláudia do Vale, mas essas só ela pode contar. Depedimo-nos deste autêntico museu vegetal com a sensação de que é difícil imaginar um passeio mais agradável depois de um confinamento, não acham? A entrada nos jardins da Quinta das Lágrimas custa 2,5€ (com descontos), têm as informações aqui.

Texto e fotos: Filipa Queiroz